Análise “O Labirinto do Fauno”

O texto a seguir foi utilizado inicialmente para a conclusão de um curso de História Antiga, ministrado na Universidade de São Paulo. Portanto, a orientação da análise está obviamente direcionada neste sentido, e confesso que peca em muitos pontos, por simples falta de tato e de paciência do autor que ora escreve em melhorá-lo em torná-lo digno de discussão. Mesmo assim, acredito que tenha esboçado os princípios teóricos que são implicados na película do ótimo Guillermo Del Toro.

Em minha perspectiva acerca do filme “O Labirinto do Fauno”, muitos aspectos abordados durante o curso podem ser elencados e suscitam questões ao longo da narrativa filmográfica. A visão que o mundo moderno possui acerca do mundo antigo, principalmente tomando como exemplo a polis ateniense, pode ser revisitada através da construção que Guillermo Del Toro faz de um mundo maravilhoso, habitado por reis bondosos, criaturas mágicas pertencentes à mitologia grega da Antigüidade, onde vicejam a justiça, a bem-aventurança e a paz. Nesse sentido, podemos apreender muitos símbolos dessa alegoria, na qual a narrativa perpassa por importantes tópicos retóricos comentados veementemente ao longo dos estudos sobre História Antiga.

     Quando no filme se retrata o mundo maravilhoso no qual a princesa fujona habitava, a imagem que é construída remete-nos invariavelmente às concepções corriqueiramente assumidas por pensadores sobre como era o modus vivendi dos antigos, suas virtudes e as boas temperanças de sua época. Desde Petrarca, talvez o fundador do renascimento ao buscar uma reaproximação com a cultura helênica, o exercício lúdico que mais se faz a respeito da Antigüidade é o de louvar as glórias e montar um arquétipo idílico, em contraponto às durezas e desilusões encontradas na análise do tempo presente. Ora, é exatamente isso que o diretor faz em relação ao “mundo subterrâneo” mitológico e mágico do filme: ao longo da narrativa, enquanto as vicissitudes do mundo real (tempo presente) nos vão descortinando uma série de injustiças, mazelas e dificuldades, no mundo mágico (atemporal, mas na minha ótica pode ser enquadrado como uma representação típica do mundo antigo, do passado em última instância), onde apenas o que se encontrava era a harmonia, a paz e o bem viver. O modelo que se toma como paradigmático desse mundo ideal é a democracia ateniense que, como nos alerta Hanna Arendt, possibilitava aos seus cidadãos a possibilidade do não-trabalho, ou seja, de desvincular o homem do seu fardo mais premente, de uma das suas condições enquanto ser humano. Ora, em uma sociedade burguesa, onde a força do trabalho é a característica motriz do sistema e, portanto sua glorificação é necessária ao bom andamento social, os deslumbramentos de uma época e de uma sociedade na qual o trabalho era dispensável àqueles que detinham o poder da cidadania é por demais tentador. Dessa forma, Karl Marx ao tentar moldar e interpretar a sociedade que se formara em sua época, viu no conceito de trabalho o ponto-chave que determinava a condição humana. Para ele, o homem apenas existia enquanto diferente dos outros animais através da sua capacidade de trabalhar, e isso implicava em um rompimento primeiro da supervalorização do uso da razão (que precedera a capacidade de trabalho expressa por Marx enquanto diferenciadora do ser humano), e em segundo plano da glorificação da própria polis onde não vicejava o labor. Além disso, ele dá ao homem a preeminência sobre Deus ao afirmar que a capacidade de trabalhar cria o homem, em outras palavras, o próprio homem ao trabalhar cria a si mesmo, e não Deus o cria. Rompida dessa forma está toda a tradição arquitetada sobre a Antigüidade, mas que sobrevive no imaginário do criador do filme.

     Aprender com os antigos também é uma lição mostrada a nós pelo filme, e isso nos remete a história mestra de vida, um tipo de historiografia vicejante nos estudiosos modernos e que ainda permeia muitas visões que se direcionam para a Antigüidade, partindo de alguns pressupostos como a similitude inescapável que une as ações humanas ao longo do tempo, e o desenvolvimento de uma mentalidade que rechaçava o que fosse mito em busca das verdades que melhor servisse de ensinamento aos homens modernos. Maquiavel é um dos que primeiro criticou tais formulações, e ampliou os campos de observação quando se trata de estudos históricos. Para ele, aqueles que se preocupam em buscar no passado as virtudes e glórias que faltam ao tempo presente, seja ele qual for, esquecem-se que aqueles que narraram os acontecimentos o fizeram de uma forma deturpada, para que melhor fossem ressaltados os feitos dos vencedores, e as possíveis calamidades e/ou deméritos foram provavelmente amenizados, reformulados ou então simplesmente ocultados. Para Maquiavel, esse tipo de atitude reflete muito mais as vicissitudes do tempo presente, no que concerne à necessidade maior ou não de encontrar consolo e ensinamentos no passado em virtude de uma contemporaneidade amarga e difícil. Preocupado em encontrar um modelo mais estável para os estados europeus em formação, Maquiavel busca em Roma e em outros tipos antigos modelos ideais de gestão que primem pela Ordem, e reconheçam a inevitabilidade do conflito social e a usem como fundamento da existência reguladora do Estado. No filme, observando-se a balbúrdia mesquinha e as maldades inerentes ao mundo real, é no mundo mágico que se buscam os ensinamentos e modelos a serem seguidos, símbolos de justiça e portadores das virtudes que faltam no tempo presente. Portanto, os símbolos que serão analisados sucintamente a seguir podem servir de indícios preciosos para auxiliar na construção das analogias que se fazem constantemente em decorrência da longa tradição criada com os arcabouços provenientes da Grécia Antiga.

O FAUNO

     Na mitologia, o fauno é uma criatura indefinida, mescla de homem e de bode que povoa as florestas, vivendo ao lado das fadas e ninfas. No decorrer do tempo, sua imagem se vincula ao deus Pã, que seria uma espécie de deus de tudo, sem uma especificação precisa. A figura do fauno é uma perfeita alegoria da própria natureza, do uso dos instintos em primazia ao uso da razão, e serve para lembrar aos homens sua eterna condição de dependente da natureza e ainda submetido às regras dela. Nesse sentido, o fauno representa também a própria natureza bestial, atribuindo-se a ele a astúcia libidinosa proveniente do constante uso dos sentidos instintivos. Sua figura foi sendo vinculada ao longo do tempo pela iconografia como símbolo mais emblemático da cultura pagã, devido à estreita relação que se atribuía a ele com Pã, e à disseminação de seu conceito. No filme de Guillermo Del Toro, a utilização do Fauno pode se dever a uma crítica dirigida pelo diretor ao regime fascista de Franco, que se apoiava sobretudo na fé católica da população para legitimar a plataforma de uma Espanha nacionalista. Ora, ao contrapor um mundo mágico onde reinava a harmonia, a felicidade e a justiça e seu maior símbolo, aquele que mais vezes e com mais ênfase é mostrado (quase como um embaixador do outro mundo), é um dos avatares do simbolismo pagão, a um mundo real católico injusto, sanguinário e perverso, o diretor está claramente denunciando a hipocrisia e as mentiras perpetradas pelo regime que tantos anos vigorou em Espanha, e que ainda suscita muitas controvérsias no que diz respeito à figura do Generalíssimo Franco. Portanto, o fauno funciona na película como uma válvula de escape das razões humanas, que leva a menina Ofélia a seguir seus instintos (por exemplo, na hora de decidir sobre qual sangue inocente derramar para se abrir o portal que a levaria ao reino onde ela era princesa), e ao mesmo tempo um emblema do mundo pagão em resposta à ideologia franquista.

O LABIRINTO

     No que diz respeito ao próprio labirinto, elemento chave do filme e um dos maiores símbolos da Antigüidade, desde a lenda do Minotauro e das façanhas de Teseu e Ariadne, muitas interpretações podem ser analisadas. O labirinto, em muitas vezes, pode ser definido como um túmulo, uma cripta, uma espécie de elo que se interpõe entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Mais ainda, pode representar um exercício espiritual, uma busca externa e interna que tenta vencer os obstáculos e as dificuldades para se atingir um âmago, um centro onde poderão se encontrar repostas e alívio. Na simbologia cristã, o labirinto sempre tinha como centro a cidade sagrada de Jerusalém, e isso nos indica que, ao se efetuar a entrada no labirinto e se enfrentar os desacertos dessa busca, o que se pretende é atingir a graça divina, estar definitivamente mais próximo a Deus. Porém, no filme, o labirinto é arquitetado de forma concêntrica, ou seja, sua estrutura é composta de círculos simétricos que vão se estreitando até o epicentro da construção. Tal disposição também é aplicada ao redor do portal propriamente. Nesse sentido, o que se pode depreender é a noção de eternidade, de eterna renovação que está sendo vinculada pela imagem, e que condiz muito bem com as condições expressas sobre as vicissitudes maravilhosas do “mundo subterrâneo”, onde a mortalidade parece não ser uma verdade. Portanto, no que concerne ao labirinto no contexto do filme, as duas interpretações me parecem válidas: o labirinto representa sim um túmulo, um ponto de passagem entre as duas existências (a real e a metafísica), seja essa passagem realmente uma morte sem maiores conseqüências ou então uma morte providencial para que o outro mundo seja alcançado, e também se configura em um caminho válido para a eternidade, um portador de elementos capazes de atribuir àquele que o vencer em seus domínios o dom de nunca mais morrer, mesmo que para isso a pessoa deva abandonar a existência no mundo “real” e partir para uma outra espécie de vida em um lugar mais aprazível.

     Muitos outros elementos podem ser identificados dentro do filme, como o fato do mundo imaginário ou fantasioso ser chamado de “mundo subterrâneo”, o que nos levaria a pensar se haveria alguma correspondência com o mundo de Hades, ou o mundo dos mortos, e se essa correspondência implicaria em alguma consideração mais precisa sobre a real condição de Ofélia após a sua passagem pelo portal. Há também as estranhas tarefas que foram objetadas pelo fauno, e que estavam condicionando o regresso daquela que poderia ser a princesa do reino subterrâneo. Tais tarefas poderiam implicar em alguma analogia sobre os trabalhos hercúleos do mundo antigo. Enfim, no filme podem ser traçadas muitas linhas que nos apontariam uma grande tradição de olhar sobre a história antiga, tradição esta que se reflete claramente em muitos topus retóricos e em analogias que demonstram uma visão quase que unilateral acerca de como se deve pensar assuntos contemporâneos valendo-se dos ensinamentos e experiências demonstrados pelos homens da Antigüidade. È óbvio que tais sistemas de símbolos podem ser interpretados de formas diversas ao longo do tempo, e variam muito de acordo com o contexto e com os interesses que perpassam aqueles que se utilizam dessas ferramentas largamente difundidas pela humanidade ocidental, mas em essência, o arcabouço e as polissemias podem estar definidas desde muito tempo, talvez até mesmo desde a época de criação desses paradigmas.

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Uma resposta to “Análise “O Labirinto do Fauno””

  1. Mitose Neural 9 – O Labirinto do Fauno Says:

    […] Análise “O Labirinto do Fauno” – Paulatina Inconstância […]

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